Sobre as bolhas informáticas
Claro que tudo isso tem um preço, que muitas pessoas podem não se aperceber que estão a pagar: a sua total dependência dos smartphones e dos ecrãs tácteis, e dos aparelhos electrónicos, ao ponto de, sem se aperceberem, se verem enfiados dentro de uma verdadeira “bolha”, alheados por completo de tudo o que os rodeia, interessados unicamente em quem têm do outro lado no WhatsApp ou nos jogos, e nos vídeos do Facebook/Instagram/TikTok.
Permitam-me ilustrar com um exemplo.
Aqui há dias, fui ao almoço de aniversário de um amigo. Data redonda, o quadragésimo aniversário, a entrada nos “-entas” e todas essas coisas. Por muito que goste dos meus fins-de-semana e os use para descansar ou recarregar baterias (ou, o mais correcto, a correr feiras de velharias a tentar gastar o mínimo de dinheiro possível), achei que devia marcar presença já que me convidaram. E lá fui eu.
O almoço decorreu numa quinta nos confins do fim do mundo, porém um local bastante aprazível, ficando nós dispostos ao longo de uma mesa corrida (havia uma mesa à parte para a rapaziada mais nova). E, à minha frente, ficou uma mãe com os dois filhos, a quem designarei doravante por Mãe (quarentona, de argola no nariz), Filha (à volta dos quinze anos de idade, com ambas as narinas furadas e uma argola no septo nasal e unhas bicudas com mais de 2 cm de comprimento) e Filho (com uns doze anos de idade sensivelmente, de cabelo pelos ombros). Eu sei que é muito feio ficar a observar os comportamentos alheios, porém em minha defesa devo argumentar que estava a fazer um documentário tipo “BBC Vida Selvagem” para o meu novo web-log (sei que não cola, mas pode-se sempre tentar).
Portanto, temos uma Mãe, um Filho e uma Filha. Imediatamente após chegarem (imagino que teriam desde logo cumprimentado o aniversariante e a esposa, mas nessa altura o meu “radar” ainda não estava activo, admito) a primeira coisa que as três criaturas fizeram após se sentarem foi “sacarem” dos seus telemóveis (e consigo afirmar que pelo menos dois deles eram daqueles que têm uma maçã dentada na parte de trás) e começarem a interagir com eles. E tudo o que se passou ao seu lado desapareceu para dar lugar à “bolha” – cada um dentro da sua, obviamente. Mãe ligou um auricular sem fios e isolou-se ainda mais na sua bolha. A dada altura, chega um bitoque para o Filho, que nem sequer levanta os olhos do telemóvel (aliás, se me perguntarem qual a cor dos olhos do gaiato, não conseguiria dar o menor palpite, uma vez que ele passou O TEMPO INTEIRO com os olhos no ecrã); contudo a Mãe aí sai de dentro da sua bolha por instantes para cortar parte da carne do bitoque (porque toda a gente sabe que as crianças só aprendem a utilizar os dois ou três talheres para comer quando atingem a idade adulta), acto após o qual o Filho começa, enfim, a comer… apenas com a mão direita, que logicamente segura o garfo, pois a mão esquerda está ocupada com o telemóvel, enquanto a Mãe volta para a sua “bolha” (deve-se aqui abrir um parênteses para explicar que a mesa dos graúdos tinha uma ementa própria, escolhida previamente e que demorou mais tempo a ser preparada, daí só termos começado a comer muito mais tarde). Assim que todos os bocadinhos cortados do bife desapareceram, a Mãe lá volta a fazer o sacrifício de sair da sua “bolha” para cortar o resto do bife para o Filho, mas desta vez o apetite do moço estava já praticamente saciado, pois a maioria daquela “segunda dose” acabou por ficar no prato; e penso não ser necessário referir que, durante TODA A REFEIÇÃO, os olhos do Filho não saíram do ecrã do seu telemóvel.
Do outro lado da Mãe, a Filha mostrava a mesma apetência para os ecrãs, pois tal como a restante família, ela ficou fixa no ecrã do telemóvel como se do outro lado estivesse o filme mais interessante desta vida (não sei se estava ou não, não me perguntem que estavam estas três pessoas a fazer ao telemóvel, poistive de ir intercalando a discreta observação da actividade destes três espécimes com o motivo principal que me trazia ali e o qual, por esta altura do texto, imagino eu, já toda a gente olvidou, que era o almoço de aniversário do aniversariante). Entretanto a Mãe levanta-se do lugar com um cigarro electrónico (é assim que aquela bodega se chama, certo?) e um maço de tabaco aquecido e ausenta-se durante algum tempo – logicamente levando o telemóvel com ela, deixando as duas crianças cada uma entretida na sua “bolha”, uma delas já almoçada.
Entretanto lá começam a chegar os pratos principais, o Filho mantém-se impávido e sereno mais o seu ecrã mas a Mãe e a Filha lá se vêm obrigadas a sair da sua “bolha” para comerem as suas refeições (posso assegurar que a Filha não teve as mesmas limitações com os talheres que o Filho e foi capaz de cortar a comida sozinha) e, aqui, admito, perdi um bocado o fio à meada porque preferi ocupar-me com o que tinha dentro do prato e em infernizar a vida do meu colega do lado; ainda assim, pude ver que a Mãe e a Filha deram alguma atenção a algo externo à sua “bolha” – a parte do almoço propriamente dita – mas, assim que o mesmo foi considerado finalizado, ambas voltaram para o seu mundinho, para a sua “bolha”, para o seu “smartphone”; claro que, pelo menos, a Mãe tirou fotografia ao seu prato (imagino que tenha partilhado no Instagram com todas as hashtags possíveis e imaginárias). Houve trocas de auriculares sem fios entre o Filho e a Mãe, poucas conversas faladas entre os três (gostava de acreditar que estavam os três a conversar entre si via WhatsApp, para aumentar mais o ridículo da cena), e só voltou a haver alguma acção quando chegou a altura de cantar os parabéns ao aniversariante, altura em que os três acabaram por ser “obrigados” a levantar-se e a fazer algo fora da sua “bolha”, mas após a conclusão dessa “chatice” lá voltaram os três cada um ao seu mundinho. Pouco depois, o almoço acabaria com a “fotografia de família” (que, imagino, será partilhada pelos três com a hashtag #family nos Instagrams desta vida) e cada um seguiu a sua vida, regressando à sua “bolha”.
Provavelmente o primeiro comentário que surgirá depois desta descrição será “foda-se, ficaste mesmo apanhado pela cota e pelos filhos dela!” e “fizeste pior figura que eles, que ficaste vidrado neles tal como eles ficaram vidrados nos telemóveis!”. OK, assumo um bocadinho o segundo (o primeiro nem pensar, nem dados os queria), mas admito que fiquei fascinado com o quão viciados nos podemos tornar nestes malditos aparelhos que damo-nos ao trabalho de ir a um aniversário para interagirmos com exactamente zero pessoas que nos rodeiam. Até mesmo eu, que, confesso, às vezes me agarro um bocadinho ao telemóvel (e eu tenho dois, “um para cada orelha”) para escrever (este texto foi escrito integralmente no telemóvel durante uma viagem de comboio, por exemplo…) ou para passar um bocado o tempo quando o tempo custa a passar, consigo ver que isto é elevar o vício a um nível extremamente superlativo e que acaba por ser, infelizmente, um reflexo da sociedade de hoje, cada vez mais isolada dentro de “bolhas” geridas por algoritmos que só nos mostram aquilo que “queremos” ver (ou o que o algoritmo acha que nós queremos ver, com base nas últimas coisas que vimos).
Lembro-me que, aqui há uns anos atrás (a.P., ou seja, antes da Pandemia), mais precisamente em 2017, surgiu uma coisa chamada Nónio, onde os maiores grupos de comunicação social nacionais se uniram para criar uma plataforma com login único para “oferecer conteúdos mais personalizados com mais segurança e qualidade” para combaterem o Facebook e a Google – e que, na altura, isso gerou uma enorme polémica precisamente porque uma das funcionalidades do Nónio era ir apresentando conteúdos personalizados ao consoante dos gostos dos utilizadores, criando uma espécie de “efeito bolha” em que só vemos o que gostamos e não vemos aquilo que vai contra as nossas ideias e os nossos gostos. Parece-vos familiar?
O Nónio acabou por falecer (o site do Anti-Nónio, contudo, continua vivo, por ironia do destino) – contudo, o efeito bolha continua e cada vez mais intensificado, connosco a ficarmos cada vez mais isolados mesmo no meio das maiores multidões. Estaremos a evoluir… ou a “desevoluir”?

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